
Surgem de todos os lados argumentos e desculpas em defesa dos “indefesos jovens” que estão na rua, e bem, em defesa da desregulamentação da habitação devido às novas propostas legislativas do Governo. No entanto, descuram as regras a que estão sujeitos mesmo durante protesto e manifestações. Para eles as regras são para os outros. Não há paciência!
Por estranho que pareça há um coro, de moderados e até de direita que parecem ajudar a extrema-esquerda a aproveitar-se da oportunidade que os jovens, (talvez manipulados), lhes estão a dar para atacar o Governo.
Estes tipos de atitudes abrem portas a uma outra espécie de populismo e demagogia, (já não só o de Ventura), para que o poder caia nas ruas para que haja uma democracia popular e posterior anarquismo. Movimentos inorgânicos não são bem vistos e, do meu ponto de vista, os sindicatos e organizações democráticas parecem ter ficado apenas a espreitar e a aproveitar-se destes momentos.
Um autor, claramente de direita, escreveu um artigo de opinião num órgão de comunicação em que alerta para alguns pressupostos que vão em direção contrária. Escreveu então que “Aos românticos de esquerda convirá lembrar que o poder raramente cai no colo dos que
Quanto à intervenção policial escreve o autor: “enganam-se os que acham que a maioria das pessoas identifica necessariamente a noção de ordem pública com a demonstração da brutalidade do Estado. Na verdade, quem preza o “modo de vida habitual” também preza a serenidade e a contenção como formas de exercício do poder. E, em momentos de tensão, está atento para perceber qual é o lado da provocação: se é o dos manifestantes ou o das ‘forças da ordem’”.
Tenho constatado que comentadores e criadores de opiniões que têm os seus espaços na imprensa, televisão e rádio, defendam eles pontos de vista de direita quer de esquerda ou de entremeios parecem estar em uníssono, com algumas exceções, em relação às manifestações e movimentos pela habitação a favor dos pontos de vista dos jovens manifestante.
Comecemos pelo ministro da Administração Interna que, como é do conhecimento tem estado no alvo da opinião pública aproveitando assim para o colocar no alvo por ter avisado “que ninguém ouse tentar trazer o caos ou a violência”. Criticam esta declaração insinuando que “deve ser lida à luz de uma crise de autoridade do ministro da Administração Interna, obrigado a fazer prova de vida junto das polícias”. Recordem-se as polémicas em que ele tem surgido na comunicação social. Então, tentar proteger os cidadãos do caos e da violência parece ser o que não deve ser feito? O primeiro-ministro também não escapa. Criticam-no por ter-se referido a uma importação da conflitualidade social. E não será? No jornal Público da passada sexta-feira poder ler-se: “Inspirados pelos protestos estudantis em França e pelas acampadas pela habitação em Portugal e Espanha, alunos das secundárias de Camões e António Arroio, em Lisboa, protestaram na manhã desta sexta-feira em frente às suas escolas”. Os estudantes, que bloquearam as oito entradas de acesso ao Liceu Camões, acusaram o Governo de desinvestimento na educação, na habitação e na transição energética, defendendo que a tutela está a pôr “o lucro acima do futuro dos jovens” e a investir na militarização.
Outros criticam a atuação da polícia que afirmam ser exagero. Portanto, é exagero pretender fazer cumprir a lei e a contenção de consequentes desacatos e vandalismo, que surgem nestas circunstâncias, muitas vezes fora de contexto e sem controlo dos participantes.
E, claro, como não podia deixar de ser, lá vem outra comentadora e redatora de opiniões a escrever que “Luís Montenegro deu o pontapé de saída na ofensiva do Governo contra os protestos contra a nova lei do arrendamento e pelo direito à habitação.”. E continua mais adiante: “Depois do pontapé de saída do primeiro-ministro, veio a jogo Carlos Abreu Amorim com um menu de argumentos desonestos. Armou-se da cartilha das alegadas causas parasitas: "O problema da habitação não se resolve com bandeiras da Palestina", e defende ainda que “como se não fosse legítimo e normal invocar vários motivos de descontentamento num mesmo protesto. Hoje, basta assinalar a presença de uma melancia ou um lenço palestiniano para imediatamente desqualificar qualquer protesto, pelo clima, pela saúde ou pela educação, aos olhos de uma certa categoria bafienta de pessoas.”
Pois não, Susana, é legítimo, mas não faz sentido! Como se costuma dizer “cada macaco no seu galho”. Isso confunde as pessoas e passam a dizer, mas afinal o que é que eles agora pretendem? Porque é que eles lutam? Pela habitação? Pela libertação da Palestina? Pelo clima? Tudo ao molho e fé em Deus, é o que é! Tudo de uma só vez. Ficamos sem saber porque devemos no momento indignarmos e lutar. Para demagogia não lhes falta nada.
As formas de protesto devem ser ponderadas, convincentes. Quando uma ação dificulta deslocações ou o funcionamento de serviços, é razoável avaliar os incómodos impostos a terceiros e a sua proporcionalidade. Isso não significa exigir manifestações invisíveis ou sem qualquer perturbação, o que esvaziaria a sua função pública. Significa defender formas de intervenção que combinem visibilidade, segurança e uma mensagem clara, procurando conquistar apoio para a solução em vez de deslocar o debate para o conflito em torno do próprio protesto.
Não sou pelo Leninismo, que defende a criação de um partido centralizado, formado por revolucionários profissionais e disciplinados capazes de conduzir a classe operária. Nem pelo Trotskismo que diz que a burguesia é fraca demais para cumprir as suas próprias tarefas democráticas; por isso, a classe operária deve tomar o poder de imediato e avançar para o socialismo.
E já agora para terminar concordo com quem escreveu que “as bastonadas da polícia só conduzam ao fascismo quando a direita está no poder. Em abril de 2023, o primeiro-ministro era António Costa. Logo, a polícia podia ser excessiva, mas nunca fascista. Quando o primeiro-ministro era Passos, também havia um fascista em todas as esquinas. Agora que o primeiro-ministro é Montenegro, voltam os fascistas e abril morreu de vez. Abril ressuscitará quando a esquerda voltar ao poder – e morrerá de novo quando ela sair. Se calhar, há gente que se diverte com isto”.
Agora espero que me chamem fascista, de direita, de extrema-direita ou lá o que é, mas eu não me importo. Cito Carolina Deslandes:
“… E agora vais dizer a toda gente que a culpa é minha
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Se queres dar o meu nome à tua raiva, ei!
… Eu não me importo!
Eu não me importo!”
Sou pela democracia, pelo direito à manifestação e ao descontentamento, mas também pelo cumprimento escrupuloso das leis num regime democrático e tudo o que mais quiserem, mas não sou pelo poder a cair na rua, nem pela desordem, nem pelos desmandos, nem pela violência, nem pelo “isto agora é tudo nosso”.