A Propósito de Quase Tudo

Governo em Modo Máquina de Lavar: Tempestades, Espuma e Promessas em Centrifugação

O processo de lavagem do Governo e a centrifugação do primeiro-ministro

Imagem gerada por IA a partir de informação sobre o tema

Hoje, se ainda não repararam, abriu a época oficial do “ministro anunciar qualquer coisa”. Há novidades para todos os gostos, incluindo algumas que já tinham sido novidade antes de serem novamente novidade. É uma espécie de operação guarda-chuva: tentar acalmar as tempestades que o próprio Governo foi semeando, com um executivo que, salvo raras exceções, segue a mancar, mas sempre com pose de quem está a desfilar.

Para salvar a fotografia do Governo, e, já agora, a moldura de alguns ministros, foi lançado um verdadeiro corrupio de propaganda, com os media a fazerem de banda sonora. Se foi a pedido ou por coincidência, não sei; mas coincidências houve tantas que até pareciam ter sido distribuídas por sorteio. Anunciaram-se anúncios já anunciados, mudando apenas o embrulho. O objetivo? Confundir, entreter e animar o povo, esse conhecido proprietário de uma memória curta e de uma paciência elástica, que segundo sondagens recentes até diz que não quer eleições agora.

A sessão de variedades começou com a ministra do Trabalho a anunciar que “não abre nem fecha a porta” a uma revisão em alta do salário mínimo previsto para 2027. Ficámos, portanto, perante uma porta em estado filosófico: nem aberta, nem fechada, talvez encostada, talvez com corrente, talvez à espera do “ok” dos parceiros sociais.

Depois entrou em cena Adriano Rafael Moreira, Secretário de Estado Adjunto e do Trabalho, garantindo que “o Governo tudo fará” para que haja acordo entre os parceiros sociais. Quando um Governo diz que “tudo fará”, convém perguntar se esse “tudo” inclui fazer mesmo alguma coisa ou apenas convocar mais uma reunião com café, água e conclusões adiadas.

Em resumo: a ministra do Trabalho mantém uma neutralidade tão bem comportada que podia ser exposta num museu. Há um acordo para cumprir, qualquer alteração depende de nova negociação e, para já, ninguém toca na campainha da tal porta. Questionada sobre ir além dos 970 euros previstos para 2027, Rosário Palma Ramalho respondeu com a elegância administrativa de quem diz muito sem abrir uma gaveta: cumpre-se o que existe, e o resto logo se vê.

Na Saúde, a crença oficial é que o verão será mais tranquilo nas urgências. A solução, para os próximos anos — quantos, ninguém sabe, talvez em prestações — passa por alargar o modelo de urgências centralizadas. A ministra apresentou soluções com aroma a “déjà vu”, daqueles que já vêm com pó de arquivo. Será que vai correr tudo melhor? Veremos. Entretanto, nas Infraestruturas, Pinto Luz anunciou com ar de festa que o Novo Aeroporto abrirá “a partir de 2035” e ficará a 20 minutos de comboio de Lisboa. Como em toda boa novela, há sempre um “mas”: afinal, os aviões comerciais poderão só aterrar em meados de 2037 no Aeroporto Luís de Camões, e ainda será preciso tratar das ligações ferroviárias. Ou seja, o aeroporto está quase pronto — falta apenas o aeroporto.

Como se vê, tudo isto é urgentíssimo, sobretudo quando aos portugueses lhes caiu em cima o problema dos exames. Mas nesse caso, claro, a culpa é democrática e repartida: professores, alunos, famílias, comunicação social e quem mais estiver disponível para figurar na lista. Menos, naturalmente, o responsável da pasta da Educação, Fernando Alexandre, que parece ter ficado fora da folha de presenças da responsabilidade.

Ah, mas temos o primeiro-ministro, o super SKIP da política nacional, sempre pronto a centrifugar crises e a deixar a narrativa com cheiro a lavanda institucional. Otimista, declarou: “creio que estão reunidas as condições para podermos dizer que o pior já passou, que as garantias de rigor e de equidade no processo estão salvaguardadas”. Tradução livre: a máquina fez barulho, a roupa ainda está húmida, mas o programa já diz “fim”.

Depois das broncas sucessivas, dos exames ao caso do Ministério da Administração Interna, passando por Pinto Luz e pela presumível ilegalidade no empreendimento do Hilton em Cascais, o primeiro-ministro tomou uma decisão histórica: não vai de férias. Vai ficar a “coordenar a atividade do Governo”, o que é uma forma solene de dizer que ficará por perto da máquina enquanto ela tenta não deitar espuma pela porta. Luís Montenegro quer que se saiba que está a trabalhar. E por que importam as férias de Montenegro? Porque, quando um primeiro-ministro vai de férias, escolhe quem fica ao leme. Neste caso, a pergunta impõe-se: há mesmo alguém para segurar o chapéu-de-chuva? O sinal de que o Governo atravessa um dos seus momentos políticos mais difíceis foi dado pelo próprio primeiro-ministro, e, curiosamente, sem precisar de dizer uma palavra.

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