A Propósito de Quase Tudo

O novo Governo da França e a batuta de Passos Coelho

Apesar de sermos um parceiro pobre da União Europeia somos de pleno direito um país e um povo que dela faz parte, não se justificando, por isso, que a sua dignidade, identidade e independência sejam secundarizadas por estes senhores do Governo sob a batuta de Passos Coelho a título unipessoal de "bom aluno". 

A direita qui do nosso burgo troçava do recuo de François Hollande relativamente às promessas que tinha feito ao seu eleitorado no que respeitava à austeridade e dava-o como exemplo ao Partido Socialista em Portugal.

Parece, pelo menos aparentemente, que Manuel Valls da ala direita do Partido Socialista Francês terá desiludido a direita neoliberal que achava que em França iria haver uma austeridade à Passos Coelho. Há, contudo, uma diferença. De acordo com o discurso na Assembleia Nacional Francesa, Valls anunciou uma austeridade sustentada, ao mesmo tempo que fará uma reforma administrativa e um Estado mais pequeno onde inclui uma diminuição das regiões para redução do défice financeiro.

É pelo rigor orçamental e não apenas pela austeridade que critica pelos seus efeitos, afirmando que há muito sofrimento e pouca esperança no futuro e que os franceses querem que haja resultados, mais emprego e menos precariedade.

Claro que acusou os governos anteriores de direita de terem aumentado o défice com o aumento de impostos da classe média par reduzir a dívida do país o que, para ele é inaceitável e afirmou que “Temos que dar novamente à França a força econômica que ela perdeu nos últimos 10 anos para que se possa baixar o desemprego”.

Aparentemente, a linha que Valls está a seguir parece ser idêntica à que de Hollande defendia em Janeiro e, pela qual foi ridicularizado pela direita portuguesa no poder e respetivos mensageiros.

Manuel Valls pretende, a partir de janeiro, apostar no crescimento económico e na justiça social através de algumas medidas que propõe:

Aliviar carga fiscal sobre as empresas com trabalhadores a receber salário mínimo que é aproximadamente de 1440 euros/mês.

Redução até 2020 do imposto sobre o lucro das empresas.

Eliminar cotizações sociais pelos trabalhadores que aufiram o salário mínimo e outras medidas para favorecer as famílias com rendimentos mais baixos.

Em relação ao anúncio da despesa em 50 mil milhões de euros até 2017, Valls afirmou que serão “esforços partilhados por todos”.

Destes 50 mil milhões, 10 mil milhões são cortes na saúde no período de três anos e outros 10 mil milhões serão poupados nas transferências de verbas da União Europeia.

Disse Valls "Não quero prejudicar o crescimento, se fizesse isso, não baixaríamos o défice e haveria desemprego. Temos de corrigir as finanças públicas, mas sem destruirmos o nosso modelo social e os serviços, porque os franceses nunca entenderiam isso".

Como é óbvio a direita em França não apoia estas medidas tal como já seria de esperar.

Não se conhece ainda ao certo como Valls irá proceder para atingir aqueles objetivos e, ao mesmo tempo, reduzir o défice. Todavia é de salientar, não a forma, mas o que pretende fazer e o timing, em contraponto com Passos Coelho que, a “mata cavalos”, quis impor aos portugueses o seu programa ideológico neoliberal destruindo o país para além da submissão e subserviência a que o sujeitou face nossos pares da União Europeia.

Apesar de sermos um parceiro pobre da União Europeia somos de pleno direito um país e um povo que dela faz parte, não se justificando, por isso, que a sua dignidade, identidade e independência sejam secundarizadas por estes senhores do Governo sob a batuta de Passos Coelho a título unipessoal de "bom aluno".

E não me venham com a desculpa que perdemos a nossa soberania com a intervenção da troica porque uma coisa é negociar e cumprir ao que nos obrigámos com respeito mútuo entre devedor e credor, outra coisa é a subserviência com que a negociação é feita e propostas que, querendo ser mais papistas do que o papa, ultrapassam as condições que nos propuseram. Veja-se o seguinte exemplo: um de nós dirigia-se a uma instituição para pedir dinheiro emprestado e, ao informarem-nos de que só o fariam se cumpríssemos determinadas condições para se efetivar o empréstimo disséssemos: - Sim senhor, fazemos isso e ainda mais além do que os senhores nos pedem…

É ser otário apenas por uma questão ideológica, não é? 

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