A Propósito de Quase Tudo

Um passeio à Baixa Lisboeta

Escrevi este texto em dezembro de 2012, um ano após a vinda da troika, altura em que a crise económica e  financeira e estavam no seu auge em Portugal e Passos Coelho ditava as medidas neoliberaois de austeridade necessárias, mas desproporcionadas, com o objetivo de empobrecer o país. Foi publicado na altura num outro blog agora desativado. Sobre os meus passeio por Lisboa neste blogue podem ver também aqui.
Estávamos em 19 de dezembro de 1012.

Resolvi ir até à Baixa a pé. Era um dia de outubro quando no céu azul se vislumbravam alguns farrapos esbatidos de nuvens brancas. Desci a Av. Almirante Reis, nome da antiga Avenida Rainha D. Amélia que a toponímia da república alterou, o que não foi do agrado dos saudosistas monárquicos que prefeririam esbanjar bens públicos sustentando a família real, a sua descendência e as suas cortes parasitas e nobiliárquicas em vez de se  sustentar um presidente e os seus satélites. 

Conta a lenda que um dia a Rainha D. Amélia, ardilosamente ou para disfarçar a sua ignorância sobre o reino, perguntou ao motorista como se chamava aquela avenida onde estava a passar, ao que o motorista respondeu: “saiba Vossa Majestade que esta avenida se chama rainha D. Amélia.” 

Cheguei ao fim da avenida que se encontra e entretece com a Rua da Palma na zona do intendente onde se localizavam o extinto teatro Apolo e o edifício do antigo cinema Rex que pertenceu à Federação Espírita Portuguesa, tendo passando a ser utilizado como cinema nos anos trinta em pleno período salazarista. O cinema sobreviveu entre 1939 e 1967 tendo sido um dos cinemas onde, nos anos sessenta, pude assistir aos mais emblemáticos e clássicos “westerns”.

Após ter regressado da guerra colonial deparei-me com a transformação daquele cinema em Teatro Laura Alves. Atualmente não passa de uma superfície comercial de bairro onde podemos encontrar a seu lado um restaurante japonês com “fast food”, de duvidosa qualidade. É frequentado por pessoas de parcos recursos situação para a qual todos caminhamos face às políticas de empobrecimento a que temos vindo assistir nos últimos tempos.

 

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Cinema Rex antigo

 in http://cinemaaoscopos.blogspot.pt/2010 1

 


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Largo de Martim Moniz anos 1950-1980 

Passei a Rua da Palma onde predominam os minimercados e armazéns de retalho e revenda chineses desembocando no Largo Martim Moniz, agora com os seus quiosques inaugurados a 8 de junho e onde dizem que se petiscam pratos de cozinha de fusão que abrange vários países do mundo. Apesar de louvável iniciativa privada em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a mim pareceram-me ser de qualidade e higiene duvidosas dado o espaço exíguo e a falta de condições para a confeção de alimentos tão diversificados. Será que a ASAE aprovaria encontraria as normas necessárias para o exercício da atividade, na mesma medida em que as exige a outros pequenos restaurantes e tascas, muitos deles a fechar por falta de verba para as remodelações exigidas e também para o qual o aumento do IVA  contribuiu para afastar clientela?

Curioso é que alguns restaurantes e cervejarias fecham as portas mas, passado meses, abrem com outro visual e a preços proibitivos para a sua antiga clientela. Está a despontar outro tipo de público que ressurgirá das cinzas da quase catástrofe social em que estamos embrenhados.

 

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Rua Barros Queiroz que liga Martim Moniz ao Rossio

Dirigi-me pela Rua Bairros Queiroz que no tempo da monarquia se denominava Travessa de S. Domingos indo entroncar no Largo da Igreja de S. Domingo onde deparo, como de costume, com grupos de africanos guineenses e outros que fazem daquele local ponto de encontro e de conversa com os seus conterrâneos.

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Largo de São Domingos em Lisboa

in http://www.alamy.com/

Chegado ao Largo do Rossio uma nuvem de gente levou-me a questionar o que se estaria a passar.

Um olhar atento dado pela curiosidade espevitada pela observação de espaços e de pessoas que a licenciatura em geografia humana e planeamento regional e local, tirada em cinco anos e sem equivalências, deu-me de imediato a resposta: aquela gente que se movimentava e dispersava por naquele espaço como formigas desorientadas longe do seu formigueiro pareciam, aparentemente, estrangeiros. Deduzi bem. Eram turistas.
A proporção entre autóctones e estrangeiros que por mim passavam a meio da manhã de um sábado de outubro naquela praça deveria ser, sem grande margem de erro, de 1 para 5.

Autocarros de turismo paravam e arrancavam sem cessar, outros, os panorâmicos que costumam dar voltinhas por Lisboa, circulavam pejados de gente mais idosa do que jovem, olhava, quais papalvos, como se estivessem a observar uma espécie rara de coitadinhos que tinham trazido para ver.

Dirigi-me em direção à Rua do Ouro ou Áurea como antigamente lhe chamavam sendo aqui e ali interrompido por pedintes e ciganos romenos que a pedir assediavam quem passava. Escuteiros aos molhos impingiam calendários para o ano de 2013, ano que nos têm dito ser o ano da recuperação económica mas que, pelo andar da carruagem, deve ser mais de retroceder.

A esplanada da pastelaria Suíça, no largo do Rossio, encontrava-se plena de estrangeiros, alguns que, àquela hora da manhã, já emborcavam copos e canecas de cerveja, outros ficavam-se pelas chávenas de café com leite e croissants, outros ainda, degustavam sumos de laranja. À frente dois sujeitos com um acordeão e uma viola, acolitados pelo acompanhamento de um amplificador portátil, iniciavam uma tocatina impercetível para posteriormente fazerem a recolha do fruto do seu trabalho livre de impostos, que era o de distrair ou incomodar sonoramente os ouvidos daqueles turistas que pareciam não ser afetados por qualquer crise, contrariamente aos portugueses com que me cruzava que mais pareciam, no seu sem rumo, dirigir-se para um sacrifício do qual soubessem não ter retorno.

Em Portugal tudo se passa como o princípio da doutrina do eterno retorno dos estoicos, retomada pelo filósofo alemão Frederico Nietzsche, segundo a qual, após milhares de anos recomeçaria sem fim uma série de acontecimentos para ser idêntica à precedente. Ocorreu-me que esta doutrina tem sido contrariada pelos portugueses pois que, ao longo da sua história, nunca precisaram de milhares de anos para retroceder, bastam algumas décadas. Não é necessário voltar muitos anos atrás, basta posicionarmo-nos na atualidade para vermos o retrocesso de vinte, trinta ou mais anos para onde as políticas que nos estão a ser impostas em nome da competitividade nos estão a conduzir.

Já na Rua do Ouro, detive-me a tentar distinguir qual o idioma do vozear dos turistas em grupo, parados e passantes que, aparentemente, estariam a contribuir para a nossa economia. Aqui e ali distinguia-se uma amálgama de línguas como o inglês, o japonês, o italiano, o espanhol e outras de origem germânica cujos meus diminutos conhecimentos nesta área não permitiam distinguir. 

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Praça do Comércio

Observando o vai e vem da gente que, aqui e ali, parava para apreciar os homens estátua nas suas posturas cada vez mais sofisticadas e imaginativas que competem entre si qual economia de mercado, desci lentamente aquela rua de Babel até à Praça do Comércio ou Terreiro do Paço, como era conhecido no tempo da monarquia e que ainda permanece no nosso vocabulário topológico.

Passaram meses desde que estive na Praça que evidencia a estátua do rei D. José na sua montada cobreada e oxidada pelo tempo, nesta altura envolta em andaimes para restauração, suponho, não permitindo a quem nos visita tirar que fosse uma fotografia que comprovasse, lá no seu país, onde estivera. As esplanadas das arcadas estavam pouco frequentadas o que estranhei, face aquela avalancha de gente.

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Cais das Colunas visto do rio Tejo

in http://www.poramoralisboa.com/

 

 

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Bancos do Cais das Colunas 

À medida que me ia aproximando do Cais das Colunas onde turistas, fotógrafos de ocasião, enquadravam os seus pares na paisagem com as câmaras assestadas, ocorria no meu espírito um ligeiro sentimento xenófobo e de pequena inveja soez daqueles estrangeiros, talvez aposentados mostrado pelo fácies envelhecido, cujas reformas lhes possibilita visitarnos, enquanto a maioria dos portugueses nem sequer têm posses para conhecer o seu próprio país, ficando-se apenas pelo sonho enquanto este não pagar imposto.

Sentei-me num dos bancos de pedra do Cais das Colunas, gastos pelo tempo e pelo roçar de nádegas que por ali passaram desde que foi construído em finais do século XVIII após o terramoto de 1755. Durante muitos anos foi o cais de embarque que ligava as duas margens do rio Tejo entre Lisboa e Cacilhas, trajeto cumprido pelos “cacilheiros”, nome que o ator José Viana celebrizou na sua canção “O cacilheiro”. Em meados do século XX, a Cacilhas deslocavam-se aos fins de semana lisboetas mais abastados para irem apreciar a caldeirada, em nada idêntica à que hoje se come, ao famoso Restaurante Ginjal que ainda hoje tem as portas abertas.

Pousei o meu olhar nas águas planas e acastanhadas do Tejo abstraindo-me da azáfama desorientada dos estrangeiros que pululavam por todos os lados. Permaneci assim durante alguns instantes até que assestei a minha revolta em todos os políticos que nos têm governado e que, ao longo dos anos, consentiram que os portugueses, enquanto povo do sul, fosse espezinhado pelos dos norte que, numa ânsia de dominância e de superioridade arranjam formas sofisticadas que justifiquem que devemos ser oprimidos e sujeitos às suas imposições ideias que o atual líder do governo perfilha (estávamos em 2012).

Regressei a casa pelo mesmo caminho mais centrado no futuro de Portugal, e com a convicção de que nos estão a condenar a viver como párias da Europa que fomos durante perto de cinquenta anos, a que apenas falta, por enquanto, a limitação à liberdade de expressão de pensamento e o controle dos meios da comunicação social.

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